quinta-feira, 29 de agosto de 2013

A Sociedade do Espetáculo

A Sociedade do Espetáculo, filme de 1973, é uma adaptação cinematográfica dirigida pelo mesmo autor do livro homônimo de 1967, o filósofo francês Guy Debord. Autor de uma obra fortemente intelectual, suas aventuras cinematográficas sempre geraram resultados, no mínimo, únicos.

Este, que é provavelmente seu filme mais conhecido, ilustra seus propósitos sobre a sociedade de consumação, sobre o homem transformado em mercadoria, sobre o império da aparência. A reflexão é longa e complexa (Debord faz uso rígido de termos, estabelecendo diferenças minuciosas entre termos) e será transposta em sua quase-integralidade ao filme.

A maneira escolhida para fazê-lo baseia-se na seleção de imagens representativas desses espetáculo, como corpos de mulheres nuas, vedetes (Marilyn Monroe, Os Beatles), a tecnologia (veículos), os discursos políticos (Stalin, Mao Tse-Tung). Essas imagens, por mais que interessantes, não constituem jamais um discurso autônomo: elas só existem em relação direta com as palavras.

Isso porque muitos trechos do livro são lidos integralmente na narração que acompanha todo o filme. Uma voz ao mesmo tempo articulada e monótona entona reflexões como “a organização revolucionária é a expressão coerente da teoria da práxis que entra em comunicação não unilateral com as lutas práticas, em devir para a teoria prática”, ou ainda “o tempo pseudocíclico é o do consumo da sobrevivência econômica moderna, a sobrevivência ampliada”.

Não seria absurdo pensar, portanto, que este filme intriga muito mais pelo seu uso particular da palavra do que por sua relação com a imagem. O tempo da literatura (no qual o leitor tem um papel ativo no controle da sua leitura, da medida necessária para assimilar as idéias) é transformado na narração agressiva e constante, na qual as palavras se sucedem justamente sem a noção de tempo, de reflexão.

Ressalta-se a virulência do discurso e o engajamento imediatista; mais do que o próprio conteúdo, que se transforma gradativamente numa mensagem em espiral, hipnótica quase, em relação igualmente cíclica com as imagens. O suporte filme parece servir à Debord como ilustração do espetáculo (que é baseado fundamentalmente no poder da aparência, portanto da imagem), enquanto o espectador conecta as palavras que se repetem: “consumo”, “Marx”, “burguesia”, “aparência”, “mercadoria”. A mensagem aparece em seu conjunto, de maneira geral, com algumas perdas evidentes (conscientes?) das nuances textuais.

Do mesmo modo, vez ou outra letreiros interrompem as imagens para citações de pensadores famosos, em especial Marx. Esta nova forma de inserção da palavra, embora seja essencialmente imagem, impõe-se com uma função semelhante àquela da narração. O verdadeiro trabalho de construção aparece com a seleção de trechos de filmes escolhidos por Debord.

Estas obras célébres (filmes de John Ford, Orson Welles) são todas americanas, e compõem o único momento sem narração, sem discurso pronto. Cabe ao espectador enxergar a relação dos trechos escolhidos – que não debatem diretamente a questão do consumo, aliás – com o conteúdo geral. Este é provavelmente o momento de maior interesse da Sociedade do Espetáculo, quando os líderes da ideologia burguesa, os EUA, aparecem resumidos em algumas imagens ontológicas de sua produção cinematográfica.

Conforme se desenvolve o discurso, pode-se destacar também a atualidade das idéias propostas. O filósofo que se gabava de “ser um raro exemplo contemporâneo de alguém que escreveu sem ser imediatamente desmentido pelos acontecimentos, (...) nem uma única vez” fala de um sintoma contemporâneo que só parece se agravar.

Pensando a sociedade francesa, é difícil não associar à atual presidência a idéia de “desprezo inerente ao político que se transforma em imagem”, ou então não pensar nos turistas parisienses (e seus grandes ônibus que passeiam pela cidade com pessoas ávidas por imagens, câmeras em punho) quando ele cita que “a sociedade burguesa tirou do nosso turismo o tempo, e a transformou no prazer de ir ver aquilo que se transformou em banal”.

Mesmo as imagens de maio de 68 (bela parte documental, com trechos preciosos das ocupações das usinas e da movimentação na Sorbonne) servem a ilustrar o único modo de revolução que Debord admite como efetivo, como proposto mesmo para os dias de hoje. A reflexão se encerra com a ideia da reprodução deste movimento, assim como a proposta de uma meditação maior sobre a sociedade de consumo. Interessante exemplo no qual o cinema se inclina diante da filosofia, A Sociedade do Espetáculo constitui um caso especial em que o militantismo impõe a sobreposição do objeto representado à sua forma de representação.
  • Qualidade: DVDRip
  • Audio: Francês com legenda separada
  • Tamanho: 700 MB - AVI
  • La société du spectacle
  • Society Of The Spetacle

Trailer

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